
Ser criança é o que a gente nunca deveria deixar de ser
Em homenagem ao dia das crianças, resolvi escrever sobre o brincar.
Como é bom brincar, não é mesmo?
E quantas coisas há para se dizer sobre este assunto! Para alguns o brincar pode até ser considerado algo simples, banal e sem muita importância, como se fosse apenas mais uma coisa que se faz quando é criança. Mas, na realidade, o brincar é uma das atividades mais importantes para o desenvolvimento do ser humano.
Você sabia que o fato de uma criança brincar, jogar e realizar atividades lúdicas é um ótimo indicador de saúde? Uma criança que brinca tem infinitas possibilidades e pode ir se desenvolvendo de uma forma tão rica que lhe permite ser uma pessoa autêntica, espontânea e criativa. Já uma criança que não brinca e não consegue utilizar de sua própria fantasia pode nos indicar que algo não vai bem.
Por meio da brincadeira a criança pode exteriorizar seus sentimentos, elaborar conflitos e situações difíceis, aprender a controlar seus impulsos e a expressar desejos, medos e receios, tanto a nível consciente como inconsciente.
Portanto, o brincar é uma atividade de extrema importância. Não podemos deixá-lo de lado. Vejo hoje muitas crianças que não têm tempo livre para brincar, pois possuem agendas cheias de atividades estruturadas, com horários restritos para poderem simplesmente ser criança e poder utilizar do que esta fase tem de mais especial, que é a imaginação, a possibilidade de brincar com a própria onipotência e poder perceber o que é do seu mundo interno e o que é do mundo externo e compartilhado. Enfim, brincando a gente pode experimentar um mundo de sensações e, inclusive, experimentar quem queremos ser.
Mas, para isso, a criança precisa ter alguém em quem confia por perto e que esteja disponível enquanto ela brinca. Normalmente essa primeira pessoa é a mãe e/ou o pai. Após estes primeiros estágios, então, a criança está pronta para o brincar compartilhado. E assim vai crescendo, se desenvolvendo, passa pela adolescência, juventude e chega à idade adulta. E aí, ela para de brincar?
Segundo o psicanalista inglês Donald Winnicott, o brincar é algo tão importante e que vai tão além do significado do senso comum, que não deveríamos abandoná-lo em nenhuma fase de nossas vidas. Isto porque para Winnicott, é apenas pelo brincar que o indivíduo pode ser criativo e utilizar de sua personalidade integral e, somente sendo criativo, que descobre sua noção de eu e de identidade. Diferente do clichê que às vezes vem à nossa mente, o brincar pode se manifestar de diversas formas, como por exemplo por meio do senso de humor, da capacidade de rir de si mesmo e pelas experiências artísticas e culturais.
Portanto, ao pensarmos em nossas crianças, sejam elas nossos filhos ou nossas crianças interiores, não nos esqueçamos do brincar. Brincando a gente cresce, se desenvolve, descobre potencialidades e dá vazão ao nosso potencial de ser autêntico e verdadeiro. Então, seja você criança, adolescente, jovem ou adulto, nunca deixe de brincar com a vida, nunca deixe essa criança interior morrer. Afinal, ser criança é o que a gente nunca deveria deixar de ser!
Referências:
Donnald Winnicott - O brincar e a Realidade. Imago: São Paulo, 1971.
Gilberto dos Reis - Ser criança