
QI e sua praticidade (16): por que inteligência importa?
Ao dizermos que a inteligência geral, capturada por testes de QI (g), é importante, estamos nos referindo à sua inequívoca e demonstrada importância prática. Como sumariamos ao longo desta série, sendo uma habilidade altamente geral, o QI(g) se correlaciona, positivamente, com muitas coisas na vida, sendo a complexidade cognitiva de suas demandas o seu ingrediente ativo e subjacente à vida. Alta inteligência não garante sucesso e baixa inteligência raramente exclui viver uma vida útil e feliz. É a personalidade, a família e, certamente, conexões com as oportunidades, bem como, a sorte, que também importam. Todavia, o nível de inteligência oscila as vantagens de sucesso e de fracasso. E as vantagens sempre favorecem os mais inteligentes. Ter um alto QI é semelhante a, num jogo de azar, ter as faces de um dado sempre resultando a nosso favor. Assim estabelecido, abaixo sumariamos as conclusões práticas advindas das diferenças individuais em inteligência, acordadas pela maioria dos pesquisadores e publicadas em periódicos especializados neste domínio.
1) Inteligência é uma capacidade mental geral que, entre outras coisas, envolve habilidade para raciocinar, planejar, solucionar problemas, pensar abstratamente, compreender idéias complexas e aprender rapidamente e a partir da experiência. Ela não é meramente erudição ou estreita habilidade acadêmica, mas sim uma capacidade ampla e profunda, que nos habilita a compreender nossos ambientes, capturar e dar sentido às coisas e configurar o que deve ser feito. 2) Inteligência pode ser mensurada e os testes de inteligência medem-na muito bem. Estes estão entre os mais acurados (em termos técnicos, fidedignos e válidos) de todas as avaliações e testes psicológicos. No entanto, eles não medem criatividade, caráter, personalidade ou outras diferenças importantes entre os indivíduos. 3) Embora haja diferentes testes de inteligência, todos eles medem a mesma inteligência. Alguns usam palavras ou números e requerem conhecimentos culturais específicos (vocabulário). Outros usam formas, símbolos, blocos e requerem conhecimento de conceitos mais simples e universais (muito/pouco, aberto/fechado, acima/abaixo). 4) A distribuição das pessoas ao longo do contínuo de QI, de baixo a alto, pode ser representada muito bem pela curva normal. A maioria das pessoas se aglomera ao redor da média (QI = 100). Poucos são muito brilhantes ou muito idiotas: aproximadamente 3% das pessoas situam-se acima do QI = 130 (frequentemente considerado como o limiar para superdotados), com a mesma porcentagem abaixo de QI = 70 (QI de 70-75 é frequentemente considerado o limiar para o retardo mental). 5) O QI, provavelmente mais do que qualquer outro traço humano mensurável, é fortemente relacionado a muitos resultados educacionais, ocupacionais, econômicos e sociais importantes. Qualquer que seja o elemento medido pelos testes de QI, ele o é de grande importância social e prática.
6) Possuir um alto QI é vantajoso porque todas as atividades requerem, de alguma forma, raciocínio, solução de problemas e tomadas de decisão. Inversamente, possuir um baixo QI é uma desvantagem, especialmente em ambientes desorganizados. 7) As vantagens práticas de ter um alto QI aumentam quando os arranjos da vida se tornam mais complexos (novo, ambíguo, imprevisível, descontínuo ou multifacetado). Por exemplo, um alto QI geralmente é necessário para o bom desempenho em empregos altamente complexos e fluídos, é vantajoso em empregos moderadamente complexos e menos útil em contextos que requeiram apenas tomadas de decisão rotineiras ou simples resolução de problemas. 8) Diferenças de inteligência não constituem o único fator a afetar o desempenho na educação, no treinamento e em empregos altamente complexos (ninguém afirma que elas são), mas a presença de inteligência, freqüentemente, é o fator mais importante. 9) Certos traços de personalidade, talentos especiais, aptidões, capacidades físicas, experiência e similares são importantes (algumas vezes essenciais) para um bem sucedido desempenho em muitos empregos, mas eles têm uma pouca aplicabilidade ou limitada transferência entre tarefas e arranjos quando comparados com a inteligência geral. Todavia, alguns estudiosos preferem denominar estes traços humanos como outras “inteligências”. 10) A Inteligência (QI ou g) também se mostra um forte preditor de saúde e longevidade. Um novo campo do saber, agora conhecido como Epidemiologia Cognitiva, tem revelado que a inteligência na infância, como mensurada por testes de QI, prediz substancialmente diferenças na mortalidade e na morbidade em adultos, incluindo mortes por cânceres e doenças cardiovasculares. Esta relação, recentemente descoberta, entre inteligência, saúde e morte será considerada nos próximos artigos.