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Nas asas da fantasia O livro pode ser um amigo e emprestar os heróis para tornar o cotidiano mais prazeroso


A Academia Americana de Pediatria recomenda: os livros fazem bem à saúde, inclusive, de crianças com menos de três anos. Isto porque ler em voz alta para elas estimula a linguagem e fortalece a relação entre pais e filhos. Se no início da vida essa prática pode trazer tais benefícios, o que o hábito da leitura não poderá acarretar com o passar dos anos?

Conforme Ely Vieitez Lisboa, mestre em Letras e Semiótica, o livro é caminho, ascensão e descoberta. “Ele enriquece nossa visão de mundo e nossa sensibilidade. Leitura é a técnica e a estrada. Sem ela, somos emparedados em um mundo mais restrito e mais pobre”, afirma a contista premiada, indicada ao Prêmio Jabuti de 1995 pelo livro “A Senhora das Sombras”.

Um único livro pode não ser capaz de mudar uma vida, mas, muitos deles abrem horizontes e enriquecem a existência, ressalta Ely. “Os livros ensinam e enriquecem a vida. Eles tornam os seres humanos mais humanos, mais sensíveis e com uma visão de mundo mais apurada”, destaca a escritora.

Além disso, asseguram grandes surpresas. Quando leu a obra “Nove, Novena”, de Osman Lins, pela primeira vez, ficou abismada. “Foi uma das obras que mais me surpreenderam pela originalidade. Já conhecia muitos autores da literatura brasileira, portuguesa, francesa e norte-americana. Lecionava Literatura Brasileira na Universidade. O estilo novo, o teor literário inusitado; tudo era o que jamais lera antes. Até hoje, a obra me fascina”, conta.

Segundo o escritor Luiz Puntel, é justamente essa sensação experimentada por Ely que define o significado de um livro para o leitor. “A leitura tem importância quando o livro incomoda, tira o leitor da zona de conforto. Ela tem sentido quando nos causa espanto”, acrescenta o autor, para quem o ato de ler é “uma grande viagem”.

Ligado à leitura desde cedo, Puntel comenta que sentiu esse incômodo inúmeras vezes, de diferentes formas. Aos 11 anos, foi para o Seminário de Brodowski.  Antes das férias de julho, como já havia sido aprovado na escola, passou a ajudar um amigo do bispo Dom Luiz Mousinho a organizar a nova biblioteca. “Tio Paulinho”, como era conhecido o voluntário, amava literatura. Ali, no meio dos livros, o menino encantava-se com as narrativas contadas pelo ex-dentista de Getúlio Vargas, aprendendo, assim, a dar valor às obras literárias. Deparou-se, então, com um livro que trazia fotos da II Guerra Mundial. “O meu espanto era: caramba, isso aconteceu não faz tempo e ninguém me falou?”, conta Puntel.

Na adolescência, quando olhava os títulos na Livraria Católica, o Padre Angélico perguntou a ele o que gostaria de ler e lhe deu de presente. Foi assim que Puntel conheceu a obra “Três garotos em férias no Rio Paraná”, de Francisco de Barros Júnior. “Para o menino que corria pelas ruas, aquele trunfo nas mãos dava a mesma sensação de uma das personagens do conto ‘Felicidade Clandestina’ de Clarice Lispector, que, ao finalmente conseguir ler o livro que tanto desejava, lia aos pouquinhos, como se estivesse saboreando um doce, para que não acabasse logo”, relata Puntel.

Da mesma forma, enterneceu-se com um o livro “Platero e eu”, do poeta espanhol Juan Ramón Jiménez, e fez viagens extraordinárias com os livros da biblioteca Altino Arantes. “A leitura era a janela que entreabria o mundo para nós. Era uma delícia ir à Biblioteca pegar livro emprestado, chegar em casa e começar a viajar pelas histórias, contos e romances”, afirma o escritor. Nas histórias contadas pelo autor, dois fatores estão associados ao gosto pela leitura: o incentivo e a oportunidade.

Não é raro uma criança ou um adolescente, ao descobrir a leitura, sentir-se tão irremediavelmente seduzido por ela, a ponto de transformar essa paixão em profissão, como aconteceu com Puntel  e com o escritor infanto-juvenil Alexandre Azevedo, autor de mais de 90 obras que, em 2012, alcançou a marca de meio milhão de livros vendidos. “O livro infantil, para a criança, é uma brincadeira, uma diversão. Nesses 25 anos de carreira literária, visitando colégios e feiras, não lembro de conhecer uma criança que não tenha gostado do livro”, garante o autor.

No caso de Alexandre, a paixão pela leitura teve um grande incentivo: na adolescência, recebeu de sua mãe uma biblioteca brasileira. Leu obras dos grandes romancistas e poetas, mas o que mais o fascinava eram os cronistas. “Lia compulsivamente. O meu preferido era Fernando Sabino. Ele era o meu ídolo. Sonhava em ser, um dia, o próprio Fernando Sabino”, conta. Escreveu, então, a primeira crônica e nunca mais parou. Isso aconteceu há 30 anos.

O autor adverte, entretanto, que não é fácil cair no gosto de crianças e adolescentes. Apesar desse público encarar o livro como uma diversão, não é bobo: sabe o que está fazendo. “Um livro infantil há de ter um ensinamento positivo, uma mensagem que desperte a criança para a importância da leitura, de modo que não a abandone na fase adolescente, que compreende tantas descobertas”, explica Alexandre. Quanto ao jovem, por ser, por natureza, um romântico, uma dose de aventura com uma pitada de romantismo pode ser o início de receita para um livro juvenil.

A estudante de Direito Giuliane Fernandes, entretanto, ao invés de abandonar os livros, passou a tê-los como hobby principal ao descobrir a leitura para jovens adultos. Desde então, ampliou seu repertório de gêneros, incorporando ao hábito a literatura adulta contemporânea e os clássicos. Para ela, no entanto, não bastava guardar o conhecimento para si. Queria conversar sobre os livros, compartilhar experiências e decidiu, então, criar um blog. “Nas resenhas, comentava sobre o enredo do livro e depois dava minha opinião sobre ele. A princípio, minha intenção era apenas comentar sobre o que lia e gostava. Com o tempo, passei a receber livros de editoras e a fazer parcerias com livrarias virtuais, mas sem nunca perder o objetivo real: discutir literatura”, conta a estudante.

O blog foi ganhando muitos seguidores, mas Giuliane optou por se concentrar nos estudos e concluir a faculdade, já que não tinha a intenção de transformar o espaço virtual em profissão. “Continuo a mesma leitora assídua de sempre, porém, menos presente na internet”, ressalta, acrescentando que a imersão no mundo literário traz benefícios incontáveis: facilita os estudos, contribui para a habilidade no uso da Língua Portuguesa e pode levar a um conhecimento ilimitado. “Cria empatia e capacidade de entender a realidade do outro, o que moldou muito minha personalidade”, afirma.

A família das letras

Cinco mil livros. Essa é a bagagem literária da dona de casa Carmen Sílvia Cappelupo. Apaixonada pela leitura desde a adolescência, quando se deparou com a edição nº 2 da coleção Júlia, série de romances digeríveis lançada na década de 70, Carmen Sílvia não consegue viver sem os livros, companheiros preciosos até nas viagens. Sua última aventura literária foi “Orgulho e preconceito”, de Jane Austen. “Leio de tudo: romances adultos, livros históricos, juvenis, best-sellers. Tenho 1626 obras em casa, todas catalogadas com a ajuda da minha filha”, conta.

Dona Carmen se refere à Luana Cristina dos Santos, de 17 anos, que desde pequena foi conduzida pela mãe a uma vida de aventuras, assim como seu irmão mais velho, Luís Cristiano. Durante algum tempo, a paixão pela leitura ficou latente, voltando a florescer na adolescência para os irmãos. Desde então, são leitores obstinados, o que faz da literatura o centro das conversas familiares: comentam sobre os livros, trocam obras, discutem sobre os autores. “O livro nos aproxima e proporciona muitas coisas boas. Através dele, conheço o mundo sem sair do lugar”, define Carmem Sílvia.

Apesar do contato anterior com os livros, Luana despertou mesmo para o mundo literário no primeiro ano do Ensino Médio, quando entrou para a Escola Estadual Jardim Diva Tarlá  de Carvalho, no bairro Ribeirão Verde. “A escola tinha um jornal do estudante com um ranking de leitura cuja vencedora havia lido 69 livros. Disse para mim mesma que bateria esse recorde e, no final do ano, já havia lido mais de 100 livros”, conta a garota, que não se cansa de desbravar o universo literário.

O que tornou os livros tão atrativos para a jovem foi a maneira dos professores trabalharem a literatura, mesclando-a com inúmeras atividades que incentivam a criatividade: são performances, produções artísticas, de fanzine e de poemas, encontros com autores locais, palestras, discussões sobre as obras, saraus literários. “Na escola em que estudava, não tinha esse incentivo e nem tanto contato com os alunos. Aqui, sou mais expansiva, fazemos intercâmbio de informações até com alunos de outros períodos”, avalia Luana.

Uma mágica que irradia

A mágica que hoje faz parte da vida de Luana e de dezenas de alunos da escola do bairro Ribeirão Verde irradia da Sala de Leitura, espaço plural e democrático, e do comprometimento de professores que se apropriaram do espaço para ampliar o horizonte de seus alunos, tornando o conhecimento sempre atrativo. Graças a esse comprometimento, a escola já recebeu inúmeros escritores locais e autoridades; participa da Feira do Livro de Ribeirão Preto com saraus; possui inúmeros projetos, como “Cartas para o Escritor” (premiado no Concurso Electro Bonini), “Profissional na escola”,  “Fanzine”, “Artigo de Opinião”, “Colcha Literária” e “Sustentabilidade”; promove a “Semana de Educação para a Vida” e a “Semana da Consciência Negra”, entre outras iniciativas.

Os projetos, realizados por diferentes professores, têm como ponto de partida a Sala de Leitura. “Este é o lugar em que os alunos mais gostam de estar”, destaca Maris Ester Souza que, junto à Renata Moura Alves, coordena os trabalhos do projeto. Os resultados têm sido tão efetivos que atraíram patrocinadores: este ano, os alunos do período noturno conheceram ópera e o Theatro Pedro II e, a convite da apresentadora do programa “Ponto e Vírgula”, Irene Coimbra, alunos selecionados conheceram o museu “Casa das Rosas”, assistiram ao lançamento de um livro na Livraria Cultura e visitaram a Bienal do Livro com tudo pago. “Tudo aqui gira em torno da leitura, o que peço à diretoria e à coordenação é fornecido, é um trabalho de equipe pioneiro, considerado exemplo na região”, conta a professora.

Para o diretor da escola, Marcelo Trivelato Ferreira, o destaque que esse projeto conquistou é muito gratificante. “Quando cheguei aqui, percebi a importância da Sala de Leitura para a escola e para a comunidade. Por isso, sempre procurei apoiar o máximo possível para que as professoras tenham facilidade para trabalhar com os alunos. O estudante tem interesse, mas temos que dar condições para que o trabalho flua da melhor maneira possível”, opina Marcelo.

Professor de História e responsável pelo projeto “Fanzine”, Arnaldo Martinez de Bacco Júnior afirma que o entrosamento da equipe e o apoio recebido da direção fazem tudo acontecer. “Criamos espaços onde, paralelamente ao currículo determinado pelo Estado, desenvolvemos atividades com foco em cultura — leitura, teatro, artes plásticas, história em quadrinhos, música e cinema. Trabalho muito com filmes nas aulas”, destaca, acrescentando que além desse artifício, destina uma de suas quatro aulas semanais à leitura e, como um contador de histórias, anda pela sala, pontua os pontos principais, dramatiza trechos da obra e faz ilustrações na lousa.





Conforme Arnaldo, os projetos funcionam melhor do que trabalhar somente com o currículo comum. “O projeto surge a partir do diálogo com o aluno. Através dessa ponte que construímos entre o passado e o presente, trabalhamos com a pedagogia de projetos”, destaca, revelando que para construir uma boa escola é preciso uma equipe que goste de pessoas e que tenha boa formação cultural.

Para o professor de Português, Lucas Guimarães Medeiros, a forma de abordar a obra também é um diferencial para despertar o interesse pelo livro. Para que isso aconteça, é abordado tudo o que contribuiu para que o produto final chegasse às mãos do aluno: aquele livro exigiu o trabalho de um autor, que viveu em determinada época, quando predominavam diferentes costumes e a sociedade agia de determinada maneira. “Quando isso é explanado de forma interessante, o aluno tem outro olhar sobre a obra, percebe que é um registro interessante da alma humana, da sociedade, de uma época, e passa a se interessar pelo livro”, conta o professor.

Para trabalhar o enriquecimento contextual, Lucas utiliza meios tecnológicos e artifícios imagéticos para que o aluno se identifique com o que está sendo apresentado e comece a ter apreço pela leitura. “O aluno começa a entender as mensagens que o livro traz, os valores ele apresenta, o que deixa como legado cultural, histórico e linguístico, mas, inicialmente, temos que desenvolver um trabalho com ele para que tenha o prazer de ler”, comenta.

A professora Maria Imaculada Batista contribui para o projeto com as rodas de leitura. “Como muitos escritores brasileiros se inspiraram em autores ingleses e americanos, fazemos a roda de leitura para que os alunos possam comparar”, conta. Segundo a professora, com o trabalho da Sala de Leitura, os alunos melhoraram muito na leitura, na escrita e no comportamento, que é muito cobrado por parte da equipe.





Para a professora de Arte, Paula Andrea Guiraldeli de Araújo, proveniente de outro núcleo educacional, a Sala de Leitura foi um presente. “Não conheço nenhum trabalho como este. Dentro da minha área, trabalhamos várias linguagens artísticas. Teve um casamento muito bonito com o trabalho da Maris — o que ela pode acrescentar  e o que eu posso acrescentar ao trabalho dela. Dentro da arte, trabalhamos muito a leitura, a linguagem verbal e não verbal, o que dá muito certo”, observa Paula.

O resultado é que alguns alunos conseguem se expressar mais na Sala de Leitura do que na aula. “A partir do trabalho da Sala de Leitura, captamos até a emoção do aluno, mesmo quando está com problemas, pois ele sabe que aquele espaço é seu. A partir de um livro ou de uma poesia, recuperamos esse aluno. Essa Sala já possibilitou muitos resgates, o trabalho aqui é feito com muito amor”, enfatiza Paula.



Texto: Carla Mimessi
Fotos: Júlio Sian

Foto de capa: Lucas Chaibub
Modelo: Matheus Guimarães
fordmodels.com.br
Tel.:
(16) 3441.4004
Agradecimento: Ipê Golf Club 

 

* Publicado em 17/10/2014

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