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Um vício dos dias atuais Viver sem internet é um sacrifício para muitas pessoas que ficaram viciadas no mundo virtual

Muitas histórias, pesquisas e conversas giram em torno do “boom” que foi o surgimento da rede mundial de computadores, a famosa internet. A web completou 25 anos em 2014, e, pouco a pouco, sem que ninguém percebesse, foi tomando conta da rotina das pessoas. Reconhecer que ela se tornou terra habitável para incontáveis usuários é fácil, basta olhar para um internauta a qualquer hora do dia. É muito provável que ele estará trocando mensagens no WhatsApp, checando o Instagram, atualizando a conta no Linkedin ou postando em seu feed de notícias no Facebook.

O supervisor de contas digital Conrado Melo destaca três pontos marcantes desde o advento da internet. “O primeiro deles foi a virada da internet discada para o início da Banda Larga, quando as pessoas passaram a ter o hábito de permanecer conectadas e não ficar apenas alguns minutos, enquanto a conexão ocupava a linha telefônica. O segundo se refere às redes sociais e à transferência de círculos pessoais e de interesses em comum, unificando o mundo todo e a mobilidade. O terceiro é o momento atual, em que as pessoas têm dispositivos que permitem a visualização e a distribuição de informações em aparelhos de baixa complexidade e de extrema acessibilidade”, aponta Conrado.

A internet, aliada insubstituível de grande parte dos brasileiros, oferece uma infinidade de informações e de ferramentas que dão suporte para momentos profissionais e de lazer. Mas como saber quando a utilidade dela passa dos limites? Se você é daqueles que não consegue passar um dia sem internet ou quando está com um grupo de pessoas, eles precisam pedir para você parar de usar, tenha cuidado, pois pode estar no rol dos viciados em internet, um problema que atinge mais de 50 milhões de pessoas no mundo, segundo dados da Universidade La Salle, nos Estados Unidos, e 4,3 milhões no Brasil.

Para Conrado, não estar “antenado” remete a não pertencer a um grupo, uma conversa, ou seja, estar por fora. Nesse contexto, a internet se torna o meio mais prático e instantâneo de se manter ciente de tudo, mesmo que superficialmente. Porém, a ânsia por novidades e a falta de critério em adquirir as informações gera consequências e a disseminação de informações e dados incorretos.

A psicóloga Isabella Suppino Ribeiro frisa que é imprescindível considerar que a praticidade e as informações trazidas pela internet são indispensáveis à realidade atual. “Desta forma, torna-se comum a utilização frequente deste meio e, para tanto, é essencial que se observem os sinais de possível vício em tal utilização, o queleva o ser humano a apresentar, em situações onde não é possível ter acesso à rede, sinais de angústia, sensação de desconforto e mudanças comportamentais, como a falta de interesse por outras atividades e o isolamento”, explica a psicóloga.

Dois documentários exibidos na edição do Festival de Cinema de Sundance, neste ano, causaram impacto e reabriram as discussões sobre as consequências que o uso desenfreado da internet pode acarretar. O “Love Child”, da diretora Valerie Veatch, retrata o intenso vício de um casal em jogos de rede, que passava mais tempo no cyber café do que se dedicava ao seu bebê e, por fim, a criança acabou morrendo de desnutrição. Já o “Web Junkie”, das israelenses Shosh Shlam e Hilla Medalia, mostra a rotina dos adolescentes dependentes da web na China, o  primeiro país do mundo que passou a considerar a dependência da internet como uma doença.

Mesmo com tantos indícios, ainda é difícil diagnosticar quando uma pessoa é viciada em internet, já que a rede pode ser usada para muitas finalidades. Porém., vale ressaltar que o uso compulsivo da internet foi reconhecido pela Associação Americana de Psicólogos e ganhou o nome de Internet Addiction Disorder (Disfunção do Vício de Internet). Segundo pesquisas realizadas nessa área, a estimativa é que 4% dos internautas desenvolvam o uso patológico da internet ou transtornos relacionados ao uso abusivo da rede.

Isabella explica que, quando o vício se apresenta, a preocupação do usuário com a internet passa a ser excessiva, pois ainda que ele se esforce repetidamente para diminuir a frequência, permanece conectado mais tempo que o programado. Neste caso, é preciso assumir a necessidade da ajuda de um profissional para tratamento. Ainda de acordo com a psicóloga, o hábito torna constante a presença da internet na existência humana, porém não traz prejuízos e distanciamento daquilo que faz sentido e é dotado de emoções atribuídas pelo ser humano. Já o vício impossibilita o internauta de fazer escolhas, conduzindo-o, assim, a uma atitude impulsiva e incapaz de ponderar a vivência de aspectos destrutivos da existência humana, como por exemplo, a irritabilidade e/ou depressão, os funcionamentos acadêmico e ocupacional afetados e as alterações dos padrões do sono.








A psicóloga acrescenta, também, que, a partir dessa hipótese, fica complexo detectar o diagnóstico do vício, pois o uso legítimo, pessoal ou profissional, frequentemente encobre o comportamento dependente. “Esta ferramenta é constantemente utilizada para trabalho, estudo, lazer e relacionamentos, tornando complexa a definição como algo normal ou patológico ao ser humano que faz uso”, comenta. De acordo com um artigo publicado na revista científica americana PLoS ONE, o hábito pode acarretar riscos à saúde física e mental. Alterações de humor, risco de depressão, sinais de abstinência a até traços de autismo podem ser apresentados pelo indivíduo. Entre os sintomas físicos, destacam-se a taquicardia, a sudorese, a secura da boca e as tremedeiras. Em longo prazo, há comprometimento da postura, lesões por esforço repetitivo, obesidade ou subnutrição.

Dossiê virtual

A rotina on-line da jornalista Lívia Komar começa logo ao acordar, pois, ainda na cama, ela se atualiza com as notícias dos principais veículos de comunicação via Twitter, por meio do smartphone. Logo depois, confere os e-mails e vê as menções das outras redes sociais, como Facebook, Linkedin e Instagram. “Apesar de assinar jornais impressos e ainda ter o hábito de lê-los diariamente tomando café, acabo, muitas vezes, optando por me atualizar nos sites das publicações, pois é mais rápido”, afirma a jornalista.

O administrador de empresas e professor de inglês Marcelo Pires revela que está conectado a todo instante e percebe aspectos positivos e negativos nessa ação. “Não nego que estar conectado o tempo todo através de vários ‘devices’ cria uma rotina. Acostumei a verificar o celular, as mídias sociais, os e-mails e os feeds de notícias como qualquer outra atividade rotineira. Posso até dizer que sou dependente”, declara Marcelo.

Fernanda Marchioretto trabalha como planner digital em uma indústria durante o dia, dá aulas de Marketing Digital à noite e, paralelamente, oferece consultoria em mídias on-line a negócios. Envolvida pelas teias da internet, declara ser viciada na rede. “Se vício é aquilo que não se pode viver sem, sou viciada em internet sim. Ela é fundamental para mim. Apenas cuido para não interferir negativamente na minha vida pessoal. Mesmo que eu tenha conhecido pela internet a maior parte dos meus melhores amigos, sei que o abuso pode me desconectar com o mundo off-line e prejudicar minhas relações interpessoais. Então, sempre que estou com alguém, evito ficar no celular checando as notificações”, esclarece Fernanda.

De acordo com as estimativas, são mais de dois bilhões de internautas no mundo e, de acordo com o estudo divulgado pelo Ibope Media, em 2013, o Brasil contava com 102,3 milhões de internautas. Desses, mais de 60 milhões são ativos na rede e mais de 40 milhões acessam a internet também pelo celular. O Brasil é considerado o terceiro país em número de internautas ativos e o primeiro em tempo conectado: são, em média, 43 horas mensais. Alguns dados sobre os internautas revelam que 80% deles acessam as redes sociais, 88% leem e-mails e 70% entram em lojas on-line.

Para Fernanda, o objetivo da internet é conectar. “A rede possibilidade infinitas conexões e isso é o mais valioso”, justifica. A consultora salienta que não vê abusos no âmbito profissional, mas há controvérsias quanto ao uso pessoal. “A internet é fundamental para boa parte das profissões. Não é possível concluir um trabalho bem feito só com ctrlC+ctrlV. O profissional precisa entender o que está fazendo e a internet é uma ferramenta de trabalho que auxilia, mas não executa”, destaca a consultora.

No campo pessoal, a internet se apresenta como forma de manter contato com familiares e amigos. Algumas pesquisas indicam que não existe diferença entre os relacionamentos de internautas e de pessoas que não estão na rede. Outras apontam que a rede aumenta a vida social ao permitir o contato entre amigos distantes e pessoas que dividem os mesmos interesses. De uma forma ou de outra, o fato é que a internet acaba encurtando distâncias pela rapidez. É muito mais rápido trocar uma mensagem do que fazer uma ligação, por exemplo.

Marcelo Pires, que está sempre acompanhado do laptop, da smart TV ou do iPhone, brinca ao dizer que o aparelho celular é uma extensão de seu braço e que isso, às vezes, o preocupa pela dependência involuntária que causa. Mesmo sendo um usuário tão assíduo, ele vê um lado negativo da internet: a perda da socialização comparada à virtualização das relações. “As pessoas estão muito boas em emitir opiniões, expor suas ideias e conhecer outras através das telas e aplicativos, mas não parecem mais tão dispostas a se abrirem no mundo real umas para as outras”, pontua.

Bom senso em um clique

A facilidade de comunicação e a economia de tempo trazida pela rede incentivam cada vez mais usuários. Na internet, a privacidade não existe. Empresas, governos e até os amigos estão interessados em obter informações sobre cada um. Lívia frisa que a internet é uma grande e importante aliada, mas, obviamente, requer cuidados.  “Hoje, a facilidade dos smartphones com câmeras, terminou com a privacidade e as pessoas caem na rede diariamente. Algumas vezes, de forma constrangedora”, avalia Marcelo.

Importantes avanços na proteção de dados na rede já estão em andamento. O Marco Civil da Internet, que começou a valer em 23 de junho, é considerado um texto pioneiro no mundo ao estabelecer direitos e deveres no ambiente virtual brasileiro. Considerada a “constituição da internet”, a lei ainda passará por algumas regulamentações, entretanto, trará benefícios para todos os usuários da rede. Para os usuários, uma das principais novidades será a neutralidade da rede, ou seja, o provedor não pode oferecer diferentes velocidades de transmissão com base no tipo de conteúdo consumido. Outro ponto importante é a privacidade: os provedores de conexão não podem monitorar os sites acessados, já os provedores de aplicação, como Facebook, são obrigados a guardar os dados de navegação por seis meses. A identidade do usuário somente pode ser revelada pelos provedores de conexão sob ordem judicial. Além disso, pessoas que tiveram imagens íntimas publicadas sem autorização na rede podem solicitar a retirada imediata do conteúdo, sem a necessidade de ordem judicial. Ainda segundo a lei, o provedor não pode ser responsabilizado por conteúdo ofensivo postado em seu serviço por usuários. Sendo assim, todo usuário é responsável por aquilo que publica.

Por um mundo off-line

Seja meditando, respirando fundo longe do computador ou deliberadamente se desconectando dos eletrônicos, desligar-se do mundo hiperconectado tem vantagens comprovadas no que diz respeito à saúde e à felicidade. A tecnologia não vai desaparecer, mas uma desintoxicação digital dá ao cérebro a oportunidade de se recuperar e se recarregar.

Um estudo realizado pelo Boston Consulting Group, encomendado pelo ICANN, entidade sem fins lucrativos que regula os nomes e números usados na web, revelou que, até 2016, a internet será responsável por US$ 4,2 trilhões de atividade econômica só nos países do G20. O aumento de usuários vai ser um dos fatores positivos: a estimativa é que três bilhões estejam conectados em 2016.  Isso revela que nem tudo é ruim na web. Pelo contrário, grande parte do que ela oferece é bom. O importante é saber dosar o uso para que as vantagens não sobreponham os excessos. A esse vício também vale o bom e velho ditado: aprecie com moderação.

Texto: Pâmela Silva
Fotos: Julio Sian e Ibraim Leão
Produção: Marcela Versiani e Mel Cândido

* Publicado em 25/07/2014

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