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O silêncio e o equilíbrio O excesso de barulho causa sofrimento físico e mental

Nunca se falou tanto em qualidade de vida como nos dias de hoje: não faltam são dicas sobre como conquistar a longevidade, de forma saudável, mudando velhos hábitos. Nos mandamentos da qualidade de vida, também entram os eletroeletrônicos e as novas tecnologias: produtos que facilitam a vida das pessoas e revolucionam a relação do homem com as tarefas diárias.

A modernidade também traz a reboque uma intensidade cada vez maior de ruídos: no trânsito, com o aumento das frotas, e nas residências, com os equipamentos sonoros e eletrônicos que têm quebrado a rotina anteriormente tranquila dos lares — TV, computadores, exaustores, liquidificadores, aspiradores, aparelhos de som. Em público, a paz é geralmente roubada pelo som dos celulares e de seus usuários, que os utilizam sem nenhum critério em relação ao direito ao sossego daqueles que o rodeiam.

Entretanto, têm sido cada vez mais comuns os desfechos trágicos para as desavenças entre vizinhos em decorrência de barulho, situações que anteriormente eram encaradas com mais diplomacia e menos violência. O caso mais notório foi o do casal Miriam Cecília Amstalden Baida e Fábio de Rezende Rubim, assassinado pelo vizinho Vicente D’Alessio a tiros, em 23 de maio do ano passado, em São Paulo, após brigas recorrentes. O fato culminou com o suicídio de Vicente. Diante disso, questiona-se se é possível pensar em qualidade de vida nesse universo ruidoso no qual o homem está inserido. Até que ponto a exposição ao excesso de ruído pode diluir a tênue barreira que mantém contido no ser humano seu lado mais bruto e irracional?

Antes, o barulho era associado apenas à perda de audição. No Brasil, conforme a otorrinolaringologista Tassiana Lago (CRM 126389), 6,8% da população possuem perda auditiva incapacitante, uma queixa bastante comum em consultórios. “Entre as causas mais frequentes está a perda auditiva induzida por ruído”, afirma. Entretanto, não há terapia capaz de recuperar a lesão causada nos órgãos da audição após a perda estabelecida, por isso, a prevenção é muito importante. E, apesar dos avanços da tecnologia dos aparelhos auditivos, a rejeição a eles ainda é muito grande, seja por vergonha ou por desinformação.  

Tassiana ressalta que, para haver perda auditiva, o som deve ser bastante intenso, como a explosão de um rojão, ou estar associado à exposição contínua e frequente a, por exemplo, uma média de 85 decibéis (db) por mais de oito horas e 100 db por uma hora.

A otorrinolaringologista explica que as pessoas associam a perda de audição à exposição a ruídos no trabalho, mas esquecem dos barulhos do dia a dia. “Um trabalhador exposto a ruído deve ser acompanhado com audiometrias frequentes e ter à sua disposição e usar o equipamento de proteção individual, além de ter o tempo de exposição e de descanso auditivo limitados de acordo com o nível de decibéis. Ruídos produzidos por fone de ouvido, som automotivo e shows também podem levar à perda auditiva, se a exposição for frequente”, observa a especialista.

A médica ressalta que é possível perceber quando o ruído ao qual a pessoa está exposta ultrapassa o limite aceitável para o aparelho auditivo: quando o som do ambiente dificultar a conversa entre duas pessoas de audição normal pode-se considerar o ambiente com nível de ruído excessivo. Se, ao utilizar fones de ouvido, a pessoa não conseguir ouvir uma conversa que ocorre ao lado, ou se, ao removê-lo, sentir zumbido ou dificuldade para ouvir, é sinal de que é preciso reduzir o volume.

A otorrinolaringologista destaca, ainda, que alguns dos primeiros sinais de exposição excessiva a barulho podem ser irritabilidade, insônia, estresse, ansiedade, zumbido, tontura, dor de cabeça e aumento da pressão arterial. Portanto, a poluição sonora das cidades contribui para o elevado nível de estresse e reduz a qualidade de vida.

Sofrimento físico e mental

Conforme Evandro José Cesarino, especialista em hipertensão arterial e professor da Faculdade Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (USP), são vários os efeitos comprovados dos ruídos na saúde humana. As consequências afetam a mente e o corpo: distúrbios do sono e em atividades, na performance e na concentração, que tendem a levar à irritabilidade e ao estresse que, por sua vez, pode acarretar uma série de respostas do aparelho cardiocirculatório, com  acréscimo da produção de hormônios como cortisol, adrenalina e noradrenalina, ocasionando o aumento da pressão arterial, que pode induzir à ocorrência de doenças cardiovasculares (hipertensão arterial sistêmica, infarto agudo do miocárdio e acidente vascular encefálico) e desordens psiquiátricas. “O ruído age de várias maneiras. Um indivíduo exposto a estresse crônico, com o ruído persistente, pode desenvolver gastrite ou úlcera péptica de origem nervosa. Prasher, em 2009, afirmava que o ruído do ambiente é um estressor físico, que provoca distúrbios homeostáticos no sistema imunológico, diminuindo a resistência orgânica, propiciando o surgimento de infecções”, explica o cardiologista.

Não há indícios de que esse tipo de ruído seja causa direta de doenças mentais, mas se reconhece que pode acelerar e intensificar o desenvolvimento em pessoas em que tais doenças estão latentes. O médico ressalta que os efeitos mais comuns são ansiedade, estresse emocional, náuseas, cefaleia, instabilidade, alterações no humor, aumento de conflitos sociais, neurose, psicose e histeria. “Do ponto de vista orgânico, além da perda progressiva da audição de caráter transitório ou permanente, a exposição excessiva ao barulho pode acarretar o surgimento de doenças crônicas”, afirma, destacando as doenças do aparelho circulatório, em virtude das respostas cardiovasculares semelhantes às que surgem com o estresse agudo, como aumento da frequência cardíaca, da pressão arterial e da resistência vascular periférica, além de doenças endócrinas.

Há relatos de que ruídos acima de 60 db são prejudiciais à saúde. Para uma pessoa saber se está ou não exposta a parâmetros aceitáveis, Evandro sugere as seguintes correspondências: uma brisa na floresta pode chegar a 10 db; uma conversa normal em um quarto, em uma biblioteca ou em uma sala de estar varia de 25 a 45db; a atividade em um escritório fica entre 55 3e 75 db; o trânsito rodoviário intenso vai de 60 a 80 db; a música com aparelhos auscultadores varia de 90 a 110db; um show de uma banda de rock atinge de 85 a 115 db; um martelo pneumático produz ruídos de 120 a 140db e uma decolagem de avião fica entre 125 e 140 db.

O cardiologista declara, ainda, que uma pessoa exposta a excesso de ruído pode, sim, chegar a atitudes extremas, mas as reações das pessoas são distintas diante da mesma situação, em momentos diferentes. “Algumas explicações podem se referir ao estado emocional em que a pessoa se encontra, ao seu tipo de personalidade e até à predisposição genética, grupos vulneráveis e diferenças de comportamentos entre gêneros”, explica o médico.

Passchier e colaboradores, em 2005, relacionaram a irritabilidade com o ruído ambiente, mostrando que os indivíduos começam a se sentir muito irritados com um valor de um indicador de ruído diurno-entardecer-noturno acima de 55 db e noturno acima de 45 db. Evandro ressalta que o auxílio de um profissional da área de Saúde Mental pode ser fundamental para o encontro de um ponto de equilíbrio no relacionamento interpessoal, aumentando a tolerância ou descobrindo alternativas para aliviar o estresse do dia a dia.

Sossego entre paredes

Para muitas pessoas, até o retorno ao lar pode ser sinônimo de irritação, já que nem sempre os vizinhos comungam da mesma necessidade de um ambiente relaxante e tranquilo, após um dia de trabalho.

O cuidado das construtoras na hora de construir um imóvel pode fazer toda a diferença.  Os sócios e construtores Adilson José da Silva e Fued Wadih Mattar Netto ressaltam que o bom isolamento acústico está relacionado a uma série de cuidados tomados ainda durante a concepção do projeto, pois cada construção tem particularidades distintas, como o tamanho do imóvel, altura do pé direito, o padrão de acabamento, o número de pavimentos, o tipo de material empregado, as técnicas construtivas e a localização, por exemplo. “Por isso, é fundamental que o projeto seja concebido objetivando compatibilizar todos os fatores e disciplinas que envolvem uma construção, tendo a melhor relação custo-benefício. Além disso, é preciso atender a normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) vigentes, tanto nos projetos quanto na execução”, afirma Adilson.

Os fatores que mais influenciam, conforme os sócios, são a espessura da laje, o material utilizado no enchimento da mesma, a espessura da parede, o material utilizado, a altura do pé direito e o posicionamento das esquadrias: quando voltadas às faces externas, devem garantir estanqueidade, isolamento térmico e acústico.

Em 19 de julho de 2013, uma norma de desempenho para projetos de edifícios residenciais novos foi protocolada na Prefeitura de Ribeirão Preto, determinando que a norma de desempenho NBR 15.575, que estabelece padrões mínimos aceitáveis tanto para isolamentos acústicos, isolamentos térmicos e vida útil de projeto, deve ser cumprida. “Os efeitos dessa norma só serão sentidos em construções com projetos protocolados, aprovados  e construídos a partir dessa data”, ressalta Fued, acrescentando que, mesmo antes da entrada em vigor da norma, muitas construtoras já adotavam boas práticas de construções e de projetos em seus empreendimentos.

Em alguns casos, explica Adilson, é possível amenizar o problema com soluções que, muitas vezes, não impactam na estrutura do edifício, mas exigem serviços como a adequação de instalações elétricas, repinturas e remoção de pisos. Para leigos, entretanto, é difícil discernir que construções foram feitas levando em conta os cuidados acústicos. A dica dada por Adilson é consultar um arquiteto ou um engenheiro para uma análise criteriosa antes de efetivar uma compra.

Aos olhos da lei

Dois artigos do Decreto de Lei nº 3.688/1941 - Lei de Contravenções Penais zelam pelo sossego: o Art. 42 — “Perturbar alguém, o trabalho ou o sossego alheios”, que requer o incômodo de mais de uma pessoa —, e o Art. 65 — “Molestar alguém ou perturbar-lhe a tranquilidade, por acinte ou por motivo reprovável”, em que apenas uma pessoa precisa sentir-se incomodada. Para que a queixa surta efeito, é necessário que a vítima ou as vítimas se identifiquem, fato que não ocorre na maioria das vezes, segundo a Polícia Militar do Estado de São Paulo: quem denuncia não quer se identificar e tampouco prestar a queixa.

Há diferentes índices aceitáveis de ruído, dependendo do local, conforme as normas vigentes ABNT. A medição é feita através do decibelímetro. Quanto ao excesso de som nos carros, o nível de pressão sonora não pode ser superior a 80 dc, medido a sete metros do veículo. À Polícia Militar, cabe a fiscalização em veículos, a Fiscalização Geral da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto atenta-se a bares e a residências.

Conforme os dados do Centro de Operações da Polícia Militar (COPOM), no ano passado, foram registrados 6.205 atendimentos de ocorrências do tipo Perturbação do Sossego. A desobediência às normas resulta em multas que podem variar de R$ 600,00 a R$ 11.000,00, conforme Luiz Carlos Vilela, chefe de divisão do Departamento de Fiscalização Geral. “A perturbação geralmente é ocorre quando a casa é aberta. Em lugares fechados, normalmente não há problemas. Quando se trata de grandes eventos, em lugares, como o Parque de Exposições ou os estádios, os produtores já conhecem os limites de calibragem do som”, afirma.

Do oriente ao ocidente


A cultura oriental, com suas tradições espirituais, valoriza os rituais e a religião, que implicam devoção e comunhão com o divino, estando o silêncio presente. Segundo a professora de Kundalini Yoga, Fernanda Dacanal Novaes, as práticas de contemplação e meditação promovem auto-observação e autoconhecimento, aliviam o aparato cerebral, propiciam clareza mental, estabilidade emocional, bem-estar, paz interior, equilíbrio em relação aos afazeres diários e induzem o homem a uma rotina mais saudável e criativa. Para Fernanda, é impossível ter qualidade de vida sem o silêncio. “Ele é o agente da harmonização mental e permite entrarmos em contato
com nossos sentimentos. Há uma frase de que gosto muito: ‘o silêncio é a linguagem de Deus, e tudo mais é tradução mal feita’”, revela. Ao mergulhar nesse universo confuso e ruidoso, que distancia o ser humano de práticas que o induzem ao autoconhecimento e à contemplação, perde-se, conforme a professora, a oportunidade de viver com total plenitude. “Leva a vida, mas não desfruta dela com todas as potencialidades, perde a si mesmo e a consciência de sua ação no mundo”, reflete.

No ocidente, entretanto, onde as tradições não têm o mesmo peso, o homem está cada vez mais envolto pelas maravilhas da modernidade e distante de práticas que privilegiam o silêncio. Conforme Ricardo Bazilio Dalla Vecchia, doutor em filosofia pelo IFCH-UNICAMP, além do inconveniente barulho das multidões e dos sons automotivos, produto de uma sociedade que parece ter invertido os sentidos de público e privado, há outra espécie de barulho a considerar: o decorrente da enorme variedade de discursos, que pretendem ditar parâmetros morais, econômicos, políticos, sociais e estéticos. “Se perguntarmos às pessoas o que pensam sobre política, religião, economia e moral, perceberemos que, embora a maioria pouco ou nada tenha refletido sobre esses assuntos, a maior parte possui uma opinião formada sobre tais temas”, ressalta o professor.

Segundo o filósofo, essas opiniões vêm da exposição constante a inúmeras vozes, ao barulho causado por discursos aos quais as pessoas aderem sem se darem conta, oriundos de instituições e de aparelhos como família, religião, escola, meios de comunicação, cultura e leis, que repetem uma ampla gama de verdades prontas que, de tanto ouvir, as pessoas acabam repetindo. “Se há uma coisa em que a sociedade atual, sob a insígnia da ‘sociedade da informação’ sabe fazer bem é barulho”, afirma Ricardo.

A grande questão é saber do que ou de quem foge o homem quando se empenha tanto em calar o silêncio. Ricardo afirma que, contraditoriamente, o barulho é mais confortável do que o silêncio: quando as pessoas apenas ouvem e aceitam o que outros dizem, não têm o trabalho de fazer suas próprias escolhas e se eximem da responsabilidade de responder por elas. O filósofo destaca, ainda, que o difícil é fazer a escolha: para construir discursos próprios, é necessário refletir, e para isso o silêncio é indispensável. “O silêncio requer esforço, persistência, coragem. Diferente da caricatural imagem que se faz da meditação, o silêncio é um ato de resistência extremamente difícil e angustiante”, enfatiza. Sendo assim, enveredar-se no silêncio angustiante de pensar por si mesmo e arcar com as próprias escolhas parece ser o grande temor humano que os discursos e seu barulho tentam abafar.

Ricardo acrescenta que é de si mesmo, da própria angústia e de seus pensamentos, que o homem foge quando se empenha tanto em calar o silêncio: com tanto barulho, o homem não pode se ouvir e desaprende a fazê-lo. Com tanto ruído, segundo o filósofo, é quase impossível pensar, fator que vai ao encontro do desejo dos que intencionam orientar as escolhas da sociedade — os detentores do poder.

Sob a gerência da indústria cultural, qualidade de vida tornou-se sinônimo de poder de consumo, de cirurgias plásticas, de carros importados, de roupas de grife e de ambientes exclusivos. “A quem interessa esse entendimento? Quem ele promove e a quem ele favorece? Por certo que não àqueles que não têm poder, e que, em virtude disso, têm suas vozes abafadas, permanecendo ‘abaixo do que é dito’, os súditos”, conclui Ricardo.

Texto: Carla Mimessi
Modelo: Gabriela Palmeira.
Make up/hair: Camila Garcia e Denis Prudente, Werner Coiffeur.
Blusa: Full Store

* Publicado em 17/04/2014

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