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Redescobrindo a obra de Portinari O renovado Museu Casa de Portinari revela a influência interiorana na arte do pintor de Brodowski



Instalado na casa onde Cândido Portinari passou a infância e a juventude, em Brodowski, o Museu Casa de Portinari reúne obras importantes do artista e revela o forte vínculo entre o pintor e a terra natal. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o espaço passou por diversas reformas e, em 1970, foi tombado peangélio Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat). As características originais e o cotidiano da vida de Portinari estão preservados na simplicidade de cada cômodo. A vinculação histórica ocorre pela ligação íntima com a vida de Portinari, motivo da escolha do local devido à presença de diversas obras pintadas diretamente nas paredes através das técnicas de afresco e têmpera, conhecida como pintura mural. O acervo de obras está constituído por uma coleção de desenhos, objetos de uso pessoal, mobiliário e utensílios domésticos do artista.Entre os ambientes destacam-se o ateliê, a Capela da Nonna e os jardins, locais preferidos do pintor. Alguns cômodos mantêm a característica original, outros foram adaptados para resgatar o realismo de sua vida e relação com a casa, a família e a cidade. Na montagem do Museu, em 2003, os visitantes eram recebidos por Dona Domingas, mãe do pintor, através de uma foto antiga com a matriarca apresentando os demais membros da família. Na cozinha, o cheiro de café, tão intenso na vida de Portinari, fazia-se presente. As cadeiras de palha usadas pela família estão na parte interna da casa por causa da conservação. No jardim, onde a família passava horas conversando, objetos da época estão recriados em tamanho real para mostrar ao público como as peças eram usadas no dia a dia. No ateliê, onde estão as tintas, os painéis e os pincéis do filho ilustre da casa, um vídeo mostra o artista fazendo o que mais gostava: pintar. Além das obras, os visitantes podem conferir os versos elaborados pelo artista. O acervo ainda conta com objetos pessoais, como o cachimbo, o fraque e uma mala de viagem, e documentos que vão desde a certidão de nascimento até o obituário.
Desde que assumiu a direção do Museu Casa de Portinari, há 30 anos, Angélica Fabbri e sua equipe desenvolveram ações, eventos e programas para manter viva a história de Portinari. A gestão atual do projeto é realizada pela Associação Cultural de Apoio ao Museu Casa de Portinari (ACAM) e trabalha pela preservação do patrimônio e da memória do artista. “É sempre um desafio lutar por esse passado devido à presença tão forte de Portinari e pelo o que o Museu representa para nós e para nossa cidade. O desafio é encontrar um fio condutor que faça com que desenvolvamos um trabalho com qualidade, que repercuta e se legitime perante a sociedade”, afirma a diretora.

Após dois anos fechado para reforma, o Museu de Portinari reabriu as portas. O restauro completo da casa integrou as obras e a edificação, pela Secretaria de Estado da Cultura, com o acompanhamento do Iphan e do Condephaat com ações que contemplaram a consolidação das fundações com injeção de calda de cimento no solo, reforço das paredes de alvenaria, substituição da cobertura e dos pisos, restauro das portas e das janelas de madeira, bem como o imprescindível restauro das pinturas murais, com a inédita realização de prospecções em todos os cômodos da casa, passando, ainda, pela modernização das instalações hidráulicas e elétricas, bem como a captação de águas pluviais.

A preservação da obra do artista e a criação de um projeto inovador de extensão da cultura às crianças e aos jovens da cidade são realizações mantidas através de parcerias importantes para o desenvolvimento do trabalho. “É uma restauração diferente da anterior, pois integra obras estruturais e das pinturas murais. Primeiramente, houve um trabalho minucioso de pesquisa e de diagnóstico para ver quais seriam as melhores soluções”, explica Angelica Fabbri.

A reabertura, em maio deste ano, foi marcada pela implantação e pela execução da nova exposição de longa duração e remontagem do Museu sob a responsabilidade da ACAM Portinari com investimentos de R$ 1,5 milhão de reais. Segundo Angelica, a exposição de longa duração visa à divulgação da Casa de Portinari, bem como, do vínculo do artista com a cidade natal e a sua infância. “A proposta é divulgar a casa onde viveu Cândido Portinari com o recorte conceitual de narrativas de uma vida: um pintor, um tempo, um lugar, além de colaborar com a fruição artística”, observa a diretora.  Para ela, o material exposto são testemunhos da presença marcante do artista em Brodowski. “Mostrá-los [os objetos] possibilita que visitantes analisem o fazer artístico, influências e temas do artista. Paralelamente, são testemunhos de vida privada num tempo, num lugar. Possibilitam a observação de memórias e história, semelhanças e diferenças de tempo e lugar na vida cotidiana”.

A exposição é dividida entre os cômodos da casa, a estrutura com utensílios e móveis que representam o estilo de vida de Portinari; documentos que revelam as técnicas, notas biográficas e indicações do conjunto de obras e os lugares que representam as memórias da cidade. Como parte integrante da exposição, são apresentadas as estratigrafias e as “janelas” de restauro que, além da função de documentação do restauro propriamente dito, mostram ao público as ações especializadas de restauro, principalmente no tocante à importância das prospecções e dos seus resultados, como a descoberta de novos murais, a fundamentação do projeto cromático da casa, estendido à exposição, além de ajudar a compreensão e o esclarecimento de detalhes da arquitetura. O projeto ainda viabiliza a apresentação dos documentos e obras através de novas salas de exposições. Entre elas, destacam-se as pinturas inéditas descobertas nas prospecções, a utilização de recursos eletrônicos com a projeção mapeada da casa, imagens inéditas obtidas nos arquivos Time Life, nos Estados Unidos, a demonstração passo a passo da realização de um afresco, a linha do tempo da vida e da obra do pintor, as pinturas murais, o ateliê e os locais de convívio de Portinari com a família. “Complementando o restauro da edificação e a nova exposição, os jardins da casa passaram por uma revitalização, com a proposta curatorial de um paisagismo composto por plantas e flores que fizeram parte da casa em diferentes momentos e espaços. Essas informações foram recuperadas em pesquisa e em acesso a fotos inéditas da casa em diferentes momentos”, explica Angélica, acrescentando que outras ações foram realizadas para reforçar a reabertura do Museu, entre elas, a implantação da loja com produtos vinculados à marca da Instituição e a logomarca atualizada.

Para Rafael Cardoso de Mello, historiador e professor do Centro Universitário Barão de Mauá e Liceu Albert Sabin, a arte é um caminho para fazer uma leitura de si mesmo, enquanto se contempla as expressões dos outros. “Quando os museus disponibilizam seus acervos, dentro de uma proposta previamente elaborada, despertam nos visitantes a relação de pertencimento dos objetos em sua vida. A ideia é nos transformarmos em outras pessoas, depois de uma visita ao Museu”, observa Rafael.  O professor usa a frase do geógrafo Milton Santos: “Cada lugar é, a sua maneira, o mundo” para explicar a arte de Portinari. “Não apenas pelo tema ou pelo estilo, mas pela proposta artística de um pintor da região que olha o mundo a sua maneira. Por isso, Portinari — a cidade e a região — revelam, do seu jeito, o século XX”.
A proximidade do cotidiano do pintor expressa nos objetos pessoais e nas obras no Museu possibilitam uma relação direta entre o homem e criação. Segundo Rafael, este é um lado importante a ser explorado que tende a incentivar a visitação do público. “É necessário produzir exposições interessantes, relacionadas à vida das pessoas, refletidas e pensadas para e com as pessoas”. Além disso, o uso da tecnologia por meio das visitas virtuais, fóruns, debates e revistas científicas completam a visão adquirida na visitação. “Os museus devem e podem se transformar em espaços de vivência, de discussão, enfim, de vida para a comunidade que o cerca. Neste sentido, enquanto as redes sociais possibilitarem parte deste processo, elas estão contribuindo para este movimento enriquecedor”, conclui o professor.

Para o prefeito de Brodowski, Elvis Carreira, o Museu é uma vitrine para a cidade e o acervo valoriza a cultura do interior tão prezada por Portinari. “Nas obras, ressurge uma linguagem interiorana marcante na região. O Museu é o principal ponto turístico de Brodowski. Recebemos pessoas de todas as partes do mundo. Isso reforça a cultura regional e alavanca projetos que incentivam o investimento no turismo”, comenta o prefeito.

Vida e obra

Há 50 anos morre o menino humilde, de família italiana cujas raízes foram plantadas na cultura do café na Fazenda Santa Rosa, interior de São Paulo. Nascido em 30 de dezembro de 1903, segundo dos doze filhos do casal, o menino que já manifestava o dom artístico, desde os seis anos, cursou apenas o primário. Nessa idade, começou a desenhar e, aos nove anos, participou do trabalho de restauração de uma igreja, ajudando artistas italianos com a pintura do teto. Em busca de aprendizado sobre pintura, aos 15 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro e matriculou-se na Escola Nacional de Belas Artes. Em 1928, ano em que conquistou o Prêmio de Viagem ao Estrangeiro, Portinari foi para Paris, onde ficou por dois anos. A cidade iluminada também foi palco do seu primeiro casamento, com Maria Martinelli, mulher que o acompanhou durante toda vida.

De volta ao Brasil, em 1930, Portinari dedicou-se a retratar a vida dos brasileiros. Daqueles que cuidavam da terra, das lembranças de infância e das memórias das colheitas de café, fonte de sua inspiração. Na primeira obra marcante que resultou em fama para o pintor – “Café” —, Portinari retratou a força do trabalho braçal e manual dos escravos e camponeses, de homens e mulheres que trabalhavam na colheita, típica da região onde o artista nasceu.  Na obra, fica evidente a importância do trabalho de homens e de mulheres na cultura do café. Portinari apresenta ao mundo essa cultura regional, ganhando reconhecimento no exterior. Em 1936, nomeado professor do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal e pintou seu primeiro mural.

Importantes obras registram o nome de Portinari, entre elas, o Monumento Rodoviário, localizado no eixo Rio de Janeiro-São Paulo e o edifício do Ministério da Educação e Saúde. As obras revelam a ligação com a cultura de seu povo e refletem a influência que recebeu de grandes mestres como Van Gogh, Cézanne, Picasso, Modigliani e o renascentista Giotto.

A convite de Oscar Niemeyer, em 1944, Portinari fez um mural para a igreja da Pampulha, em Belo Horizonte, onde pintou São Francisco e a Via Sacra. Em 1952, deu início a outro importante painel que retratava a chegada da família real portuguesa à Bahia e, em seguida, iniciou os estudos para o famoso painel “Guerra e Paz”, um dos maiores pintados por ele.

A vida dos moradores de Brodowski e a calmaria da cidade, principal palco de inspiração, também serviram de exemplo para Portinari traçar o perfil de Arduíno Heitor Morando. O aposentado ficou conhecido internacionalmente pelos pincéis de Portinari ao expor o seu retrato em uma das telas da série “Meninos de Brodowski”, na galeria Charpentier, em Paris. Com camisa e calção feitos de saco de farinha, Arduíno posou em um banco no jardim da casa de Portinari. “Na época, eu não tinha noção da importância desse fato porque era criança. Hoje, para mim, ter feito parte da história da vida de um artista como ele é uma honra”, diz orgulhoso o personagem de 77 anos que até hoje mora em Brodowski.

Projeto Portinari

A rotina na infância era acompanhar o pai em visitas a galerias de arte ao redor do mundo. João Cândido Portinari, filho do artista, está à frente do Projeto Portinari e divulga as obras do pai expostas no Museu.  “É muito emocionante ver esse universo ainda vivo até hoje. A cidade nunca saiu do coração e dos olhos do meu pai”, relembra João Cândido.  O Projeto Portinari reúne um acervo multimídia sobre a história e a cultura brasileira do século XX retratada pelo artista. São mais de cinco mil obras atribuídas ao pintor e mais de 20 mil documentos sobre suas pinturas, vida e época. O projeto visa à inclusão social e direciona as atividades à promoção da cidadania e ao fortalecimento de valores sociais e humanos.

Segundo João Cândido, relembrar fatos que remetem à infância com o pai faz parte da rotina diária. “Toda manhã, ouço música de viola para reviver a história de meu pai. É uma maneira de fortalecer a valorização que ele dava à cultura do interior, tão escassa em grandes capitais como Rio de Janeiro, onde moro atualmente”, conta o filho do pintor. Outro fato relembrado por João Cândido são as férias vividas em Brodowski. “Vínhamos para o interior constantemente. Hoje, entendo o quanto é importante e necessário valorizar a cultura da nossa região. Meu pai fazia isso através da obra e do amor que tinha pela cidade e seu povo”.

Para João Cândido, essa é a função do Museu Casa de Portinari, reforçar valores e tradições, além de eternizar a história de uma cidade. “As obras presentes no Museu, assim como livros,  reforçam valores não apenas estéticos, mas também os valores que podem construir uma nação e transformar a sociedade a partir de determinada  cultura”. De acordo com João Cândido, Portinari ainda é um pintor atual. Sua preferência pelo painel Guerra e Paz ocorre pela singularidade da obra ao mesmo tempo em que traduz a realidade do mundo atual. “O mais importante da obra é a mensagem, as tragédias atuais são traduzidas no painel quando meu pai expressa a dor de uma mãe, quando as crianças presentes na obra não são mais as crianças de Brodowski e sim as crianças do mundo”.




De forma poética, Portinari expressava o trabalho no campo e o cotidiano de sua terra natal, Brodowski










Museu Casa de Portinari
Praça Cândido Portinari, 298
Tel.: (16) 3664.4284
Horário de visitação
De terça a domingo, das 9h às 18h

Texto: Cristiane Araujo
Fotos: Carolina Alves

* Publicado em 01/08/2014

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